Maternidade tem muito da relação mãe e filha, sem desmerecer a relação mãe e filho. Mas não tem como falar de criar filho sem pensar na sua mãe e isso é algo muito poderoso. Às vezes eu me questiono quanto da mãe que eu sou hoje é resultado da mãe que eu tive.

Uma das coisas mais lindas que ela me deu até hoje foi o roupão peludo azul que ela usava na minha infância. Bem quentinho. Ele já ficou no fundo do armário uma vez e quase embolorou. Lavei. Deixei no sol por vários dias. Me julguei por ter deixado lá o verão todo, sem arejar. Mas ao fim, tudo deu certo. Ele ainda tinha o cheiro dela.

Certeza que deve ser uma sensação psicológica.

Minha mãe estava sempre de roupão pelas manhãs. Ela dava um grito na porta, acordava a gente e ia pra cozinha. Se você demorasse pra acordar ela voltava.

Já de uniforme, eu encontrava ela de pé, na frente da pia passando um café, ou lavando alguma coisa. Às vezes tava fazendo pão na frigideira. Sempre com roupão. Ela tinha este azul royal peludo bonito e um outro, que era do meu pai, tipo um xadrez em dois tons de azul. Ela ficava ótima neles.

Eu guardei uma sequência de imagens disso tudo. Ela reclamando de roupão e ela rindo de roupão e brigando com a gente de roupão. Conversando. Dando beijo de tchau com olho inchado de sono.

E antes mesmo da Alice nascer eu já sabia que não poderíamos tomar café da manhã juntas porque eu saio super cedo de casa. Hoje quem exerce esta função é meu marido. Mas acabamos criando outros momentos, algo sem planejamento prévio. Um deles é a hora de dormir. Eu deito do lado dela e ela me abraça. Lemos histórias e depois rimos e ela se aninha no meio do meu roupão. “Você é tão quentinha” ela diz vez ou outra.

Eu sempre achei que não seria uma mãe legal porque eu nunca estaria lá pra acordar ela, e pra conversar na cozinha e depois dar beijo de tchau antes dela ir pra escola. Demorei pra entender que por termos vidas muito diferentes, não poderia usar minha mãe como referência pra muita coisa.

No fim das contas, tudo se ajeita.

Pra cada nova vida, novas experiências também são criadas, novos momentos.

Se eu tenho Memórias do café, ela terá Memórias da hora de ir dormir.

E a tradição familiar?

Não acho que tenha se perdido por inteiro. Ela permanece viva, mesmo que diferente, naquele velho roupão azul peludo.


E você, qual é a sua memória de infância da sua mãe? Conta pra gente aqui nos comentários  😛 

Adriana Tozzi
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Eu sou Adriana Tozzi, curitibana, professora, engenheira, cantora de karaokê e mãe da melhor pessoa que eu já conheci ❤.

2 Comments

  1. Que lindo texto! A minha lembrança mais deliciosa da infância é que minha mãe me ajudava a fazer a lição de casa enquanto ela lavava as roupas da familia, no tanque!! E toda vez que ela chegava pertinho pra me apontar algo no caderno ela exalava um cheirinho delicioso de amaciante. ❤️ Hoje quando chego no casa dela e vejo ela lavando roupa corro cheira-la e relembrar aqueles momentos maravilhosos!!

    • Adriana

      Eu acho incrível essa relação com o cheiro. Ja até escrevi sobre isso em outro post. Tem peças de roupa que eram da minha mãe e agora são minhas que não perdem o cheiro dela, mesmo lavando. Como se o cheiro ficasse gravado no cérebro … rs. E por exemplo, eu consigo sentir o cheiro da minha filha de longe.
      Como explicar?

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