Nasci no interior de Santa Catarina numa cidade chamada Xanxerê com um pouco mais de 40 mil habitantes. Minha infância e adolescência foram bem isoladas do Mc Donalds, mas foram muito legais, regadas a treino de basquete, pipoca, chimarrão, pijamadas na casa das amigas e noites quentes de verão com conversa na varanda de casa. Se não tinha muito o que fazer, a gente inventava… Porém, eu comecei a crecser e chegou o momento em que tínhamos que buscar algo que aquela terra não iria proporcionar  🙁 

EUZINHA, bem Dorothy sonhadora hahaha

Sempre tive um ciricutico para sair conhecer o mundo! Passei a vida olhando filme, referências, moda, gastronomia e design, imaginando se um dia eu teria possibilidade de viver fora do Brasil. Acho encantador como cada canto do mundo tem uma comida, uma língua, uma cultura… E como tudo funciona igual, só que diferente haha Foi até um dos motivos pelos quais criei a coluna Mulheres pelo Mundo no Blog, clica aqui pra ver!

Na faculdade, soube da oportunidade de fazer intercâmbio e isso virou: O GRANDE OBJETIVO DA MINHA VIDA. E durante 4 anos estudei italiano feito louca e depois de todo o planejamento e esforço, reprovei na primeira prova haha CHORO, DRAMA, DESESPERO. E 12 meses depois na 2ª tentantiva, tive a oportunidade de viver 1 ano na Itáliaconto essa história em outro post. Em 2011, voltei pro Brasil, (NOSSA falando assim até parece que é RYKA NÉ) com gostinho de quero mais, mas com o decorrer do tempo “meio que” me acalmei por aqui.

7 anos depois, cá estou eu, morando no México. Confesso que essa segunda tentativa também teve um dedinho meu 😈 , que plantei a sementinha da OUSADIA E ALEGRIA na cabeça do marido e a oportunidade surgiu. É porque sou bem dessas que VAI ATRÁS DAS COISAS porque elas nunca vem bater na minha porta hahaha Infelizmente.

Nas duas experiências aprendi algumas coisinhas que gostaria de compartilhar.

• NÃO TEM NADA DE GLAMOUR.

O Brasil cria uma bolha estrangeira perfeita na nossa cabeça, o tal “complexo do vira-lata” (odeio esse nome) que tudo que tá fora daqui, é melhor e mais fácil. Isso só deixa claro o quanto a gente vive isolado financeira, geográfica e culturalmente do restante do mundo. Quando você tá morando em outro país, os 3 primeiros meses são de adrenalina total, porém o tempo passa e tudo se normaliza.

Aquele lugar, as pessoas, a casa, as ruas, se tornam algo do seu dia-a-dia e ao mesmo tempo, NADA é fácil. Eu ouso dizer que é bem ao contrário, no começo, qualquer ida ao mercado ou ligação estrangeira, são um DESAFIO ENORME. E morro de medo de parecer boçal com esse texto  🙁  Meu objetivo aqui é passar exatamente o oposto disso.

• É VOCÊ QUE TEM QUE SE ADAPTAR AO MUNDO E NÃO O MUNDO A VOCÊ.

Imagina que você foi a vida toda num mercado perto da sua casa e um belo dia você entra e tá tudo diferente, as embalagens, as marcas, o tipo de comida, as pessoas, o dinheiro… É o exemplo do grande exercício de desapego, de coisas que nem imaginava que iria sentir falta algum dia. Tem gente que faz um drama, e quer ter o Brasil dentro da sua casa.

Eu já sou da opinião que se se propôs a mudar, é pra entrar de cabeça e viver quase que como local. Aprender com eles novos hábitos, sabores, entretenimento, se abrir de corpo e alma mesmo. Essa é a tão famosa “imersão” que o povo fala. E aí, quando a saudade bater, traz o quitute que você não vive sem na mala e fica de boa. Eu, por exemplo, não vivo sem o chimarrão ♥ hahaha ps: e quando trouxe fiquei me cagando de medo porque se abrissem minha mala poderiam pensar que era MACONHA hahahahaha

• O JEITO DE PENSAR LÁ FORA TAMBÉM É DIFERENTE.

Na Itália, tive oportunidade de trabalhar num pequeno escritório de design. A primeira conclusão que cheguei é que não importa o país, as pessoas estão sempre reclamando do trabalho delas hahaha Eu lá, BEM LOKA nem acreditando que tava vivendo aquilo e meus colegas num dramalhão italiano igual ao que eu fazia no Brasil. Mas ok, voltando ao tópico – Não é só a comida, a língua e a cultura que mudam, o pensamento também.

Entendi que eles pensavam design de um jeito diferente, como criavam, organizam, discutiam. Tudo tinha um outro tempo, outro cuidado e estudo. Então, se você vai se propor a trabalhar em outro país, pode ter a grande oportunidade de perceber as coisas de uma maneira nunca vista antes. Mais uma vez, não adianta chorar e dizer “Li ni Brisil, i ginti nim fiz issim”, o jogo mudou, amigo! E por um determinado tempo você vai ter que dançar conforme a música deles. Ao invés de reclamar, aprenda  😉 

• NO COMEÇO BATE UM DESESPERO

Eu poderia fazer uma lista gigante de momentos que eu pensei: QUE QUE EU TÔ FAZENDO AQUI? Eles existem e a bad bate, porque você percebe que o mundo cor-de-rosa nunca existiu. Você pode estar no lugar que sempre sonhou, mas como já mencionamos lá atrás, não existe lugar perfeito. Tudo tende a se normalizar depois de um tempo (uma pesquisa que eu li disse que demora 2 anos).

Quando cheguei na Itália, no prédio de 200 anos da pensão caindo aos pedaços – no nível que toda noite eu achava que iria acordar nos escombros do terremoto (escrevi esse texto antes do terremoto do México) – e um iraniano abriu a porta pra mim falando em inglês, tive meu primeiro contato com a realidade que iria viver dali em diante. No México, numa tarde quente de verão em uma das igrejas bem antigas do centro da cidade cheia de gente, tinha um padre benzendo uma galera, jogando água benta… e pensei:  O QUE QUE EU FIZ DA MINHA VIDA? Aí veio outro aprendizado…

• NINGUÉM É MELHOR OU PIOR QUE VOCÊ, TODO MUNDO É IGUAL.

Na igreja eu tive esse insight porque confesso que estava com um certo preconceito com o México, estava observando eles com a visão “de cima para baixo” ou de “colonizador” e uma voz veio no meu ouvido e falou: SOMOS TODOS HERMANOS. Talvez tenha sido a Virgencita de Guadalupe, talvez um pensamento sensato, mas o fato que isso mudou totalmente minha percepção das coisas aqui. Relaxei e consegui olhar para os mexicanos como conterrâneos mesmo.

Consegui me por na mesma altura e entendi que eu que deveria pedir “permissão” para viver aqui e não de para entrarem na minha vida. SE TOCA NÉ, GAROTA! DESCE DAÍ! 

Na Itália vivi a mesma coisa, só que o contrário, me achava menos e só com muito trabalho me senti “a altura dos italianos” #ERROTAMBÉM. Os dois caminhos são venenosos porque distorcem a realidade e podem nos influenciar a ver só um lado da situação, quando na real precisamos sentir ela por inteiro. Viver meses envenenada com preconceitos em um outro país pode ser terrível pro seu estado mental, que nessas altura já tá LOCÁÇO!  

• UMA COISA É MORAR FORA XOFEM OUTRA COISA É MORAR FORA ADULTO.

No intercâmbio QUASE tudo era festa! Eu morava numa pensão com 25 pessoas de vários países (Hungria, Lituania, Polônia, Egito, Turquia…) que se renovava a cada 6 meses… Pensem! Era muito divertido, você sempre tinha companhia, festa, gritaria, babados e shots hahaha Antes que vocês achem que era putaria, a Signora Anna que era quem fiscalizava tudo com olhos de águia de véia loca italiana! Tive alguns confrontos com ela… na verdade, foram vários hahaha

 Amigos? Aos montes! ps: depois de 3 meses né, porque a ingênua aqui só estudou italiano e TODO MUNDO SÓ FALAVA INGLÊS #FAIL Fiquei muito tempo fora das conversas, foi tenso…

Adendo: Alguns anos atrás fiquei sabendo que essa mesma pensão foi fechada porque não tinha autorização para funcionar, tipo, foi todo mundo pra rua!  😯 Babado, menina! 

Tá, lindo maravilhoso. Agora corta pra mim no México, co marido, trabalhando de home office, interação mínima com locais falando espanhol sofrido e conhecendo só uns brasileiros do curso. CRI CRI CRI Além de que agora tenho 5 sobrinhos, mais afilhados, mais filhos de amigas.. TUDO LONGE 🙁 Crianças mexem MUITO com o nosso emocional e não vê-los crescer, dói o coração.

Mas eu já sou macaca véia de mudança e dessa vez quis fazer diferente: resolvi me dar UM ANO SABÁTICO DE AMIGOS. Isso não quer dizer que não iria socializar ou procurar, só significa que ficaria de boáça se amigos íntimos não aparecessem nessa fase. E foi isso que eu fiz e funcionou. Não me precipitei, só me iludi 1 ou 2 vezes (sim, porque crush de amizade também faz a gente sofrer haha) e conheci pessoas bem legais! Amigos bons levam tempo, então dê tempo a eles.

• SE JOGA DE CABEÇA (ou de barriga)

O aprendizado é inevitável! Mesmo que você seja uma pessoa que não curta pensar na vida haha VAI FICAR ESCANCARADO BEM NA #SUACARA a realidade da situação.

Mergulhe na cultura local, aprenda com eles a ver as coisas diferentes 😆  Coma, beba, dance, viaje… Vai chorar? Vaaaai. Vai bater o desespero? Vaaaaai. Vai ver que a realidade é bem diferente? Vaaaaai. E a saudade? Nuss, nem se fala. Mas como minha →NOVA AMIGA JANE← disse: “Nenhuma mudança é pra sempre” então, aproveitar essa aventura ao máximo, vale cada segundo  😛 Talvez seu EU de agora não perceba, mas seu EU do futuro vai amar essas memórias  😎 Sempre imagino a Ivana de 89 anos falando pra de 23: Obrigada por tudo, querida ♥


E você tem vontade de morar fora por quê? E quem já morou, o que aprendeu?
Deixa aqui nos comentários 🙂

5 Comments

  1. Gente! Adorei o seu relato… e ouvindo você falar da Itália me trouxe muitas lembranças, não muito agradáveis. Eu morei 1 ano fora em 2011 – nesta época tinha lá minhas cutis belas e formosas de 25 anos – em Dublin/IRL, mas fiz ao final da minha estadia, resolvi uma trip de 30 dias, por 6 países, eu e minha mochila, alguns couchsurfing, dormindo em alguns aeroportos, cabines telefonicas, e a maior parte do tempo sozinha. Estive em Roma, e digo hoje pro meu marido, que não piso lá nunca mais, rs. Pois, peguei um trem horrendo de Roma para Milão, cheio de gente bêbada, e um cara se masturbando – pior foi que fiquei em um vagão de 6 com três homens e duas mulheres – morrendo de medo (nem preguei o olho, a noite TODA). Ser negra contribuiu também, para o assédio – chato dizer isso, mas só eu sei o que eu passei – de resto foi tudo muito bacana, e por incrível que parece Berlim foi o lugar onde fui mais respeitada. E eu que achava que era toda modernosa, também designer, publicitária me descobri nem um pouco open-minded em Amsterdãm.

    (A propósito, descobri que temos uma amiga em comum – a Jéssica Dória que está em Barcelona – minha amiguinha de infância, vizinha de porta, em FLN)

  2. Gente, esse texto foi tipo um afago na minha alma!! Já morei em 3 cidades diferentes no Brasil e por conta do trabalho do marido agora estamos em um outro país. Não é “qualquer” outro país, estamos vivendo nos EUA. De cara, tudo foi festa e alegria, mas quando as coisas começaram a entrar na rotina.. pois é, veio a primeira “bad vibe” por estar longe da família, dos amigos, da nossa cultura, dos hossos hábitos, da comida, da música.. Sentia falta de tudo! Enquanto isso, todo mundo lá achando que vc tá tipo vivendo uma vida de sonho! Ninguém vê os perrengues e a m**** que é se adaptar a tanta coisa de uma só vez. Tudo é um sacrifício quando você está começando sua vida num outro país! E fora que parece que tudo de mais inusitado no mundo resolve acontecer com vc, só pra te tirar da zona de conforto que nem tá tão confortável assim ainda! Rsrsrs. Não dá pra negar que morar em qualquer outro país é uma experiência/oportunidade e tanto, mas só a gente sabe que, no fundo, nem tudo são flores, né?? Longe disso. Me vi em várias partes desse texto e posso dizer que eu poderia ter escrito de tanto que concordo. Melhor parte foi ter certeza de que tudo que passei e ainda estou passando é normal e faz parte do show! Rsrs. Beijo pra vc.

  3. Que texto!! Queria ter lido ele há 10 anos atras hahah essa visão de que somos todos iguais é a chave pra um contato real das coisas! Obrigada ivaninha ❤️

  4. Você e5um Maxim o. Mesmo eu não ter mudado de Pais ou cidade. E ainda sendo meu sonho (AMO mudanças) Faz agente ter a REAL da mudança. Tanto emocional.como física. Obrigada IvaninhaLinda

  5. Eu ri tanto desse trecho ” só me iludi 1 ou 2 vezes (sim, porque crush de amizade também faz a gente sofrer haha) e conheci pessoas bem legais! Amigos bons levam tempo, então dê tempo a eles.”!

    Vc definiu direitinho o que já estava na minha cabeça rs. Muito bom seu texto, me vi em várias partes. Nada de glamour!

    Também moro fora, estou completando 2 anos de Canada. Tive várias “desilusões amorosas” com pessoas que achei q seriam minhas amigas e nada.. hahaha! Não é fácil mesmo fazer amigos depois de adulto, dá muito mais trabalho e requer mais esforço. E só o tempo vai dizer se a amizade faz bem ou não. Já me afastei de uma pessoa legal, mas muito negativa e que me deixava é triste por ter que ficar ouvindo desabafo em cada encontro – já basta nossa saudade, problemas, adaptação etc, virar psicólogo alheio já é demais, né. Quero focar nas coisas boas!

    Viver fora é enfrentar todo dia um novo desafio e temos que nos rodear de pessoas positivas e queridas para nos ajudar a ‘esquecer” as saudades da família e amigos do Brasil.

    No final do dia, coloco todos os prós e contras na balança e sim, ainda vale muito à pena viver aqui, mesmo longe. A segurança é impagável.

    Primeira vez que acesso seu site, bem legal! Bjs

Write A Comment