T. Sou paulista de nascimento, mineira de formação e parisiense por opção. Apesar de ter feito engenharia ambiental, desviei um pouco minha carreira e atualmente sou mestranda em geoprocessamento. Antes de começar a faculdade, eu já pensava em fazer algum tipo de intercâmbio. Sempre tive curiosidade de como seria morar em outro país e quando estava no meio da faculdade, tive a oportunidade de fazer um intercâmbio em Compiègne, cidadezinha há 40 minutos de Paris.
Durante meu período lá, conheci um francês, hoje meu namorido. Até a nossa formatura, nosso relacionamento foi intercalado com semestres de intercâmbio/semestres à distância. Com o amadurecimento da nossa relação,
começamos a conversar sobre o que faríamos no futuro. Sabíamos que um de nós deveria ceder, mas também não queríamos prejudicar a carreira um do outro. Depois de muita reflexão, eu me mudei para França ano passado.

1) Como você pensou que seria morar aí e como realmente é? Hora da verdade!


T. Vamos dizer que todas as ilusões que eu tinha de como seria morar na França acabaram quando fiz intercâmbio, então eu não tinha nenhuma expectativa quando me mudei para valer. Alguns pontos que eu posso destacar são:
  • Segurança: de maneira geral, a França é um país mais seguro que o Brasil. Acho mais tranquilo andar aqui com o celular na mão, ou voltar mais tarde sozinha para casa, mas eu não abuso muito em Paris. Em certos pontos, principalmente nas áreas turísticas, eu aumento o meu “nível de alerta”. E por incrível que pareça, já fui furtada aqui, mas nunca tive problemas no Brasil.

  •  Educação: a grande maioria das escolas são públicas, assim como as Universidades. Então, não existe essa história de “quanto que é a matrícula, eu pago”. As crianças terão o mesmo nível de formação, que é muito boa. Acho que esse tópico explica a questão da segurança. Em relação às Universidades, já passei por 3 e acho que o sistema francês é muito decoreba, talvez até mais que o Brasil.

  • Comida: percebi que o forte da culinária francesa é a haute cusine, as pâtisseries, os pães e os vinhos. Na comida de todo dia, prefiro o nosso arroz e feijão do que o macarrão sem molho deles.

  • Cigarro: como francês gosta de fumar! 3 entre 10 franceses fumam, mas eu tenho a impressão de que é mais do que isso. O cigarro é quase algo cultural, é muito normal o pessoal fazer aquela rodinha na frente do escritório ou mesmo a existência de fumódromos em bares. Durante o inverno, a minha sinusite/rinite sofre bastante.

  • Aluguel: este é um ponto que eu já esperava ser bem espinhoso. Eu sabia que para conseguir apartamento em Paris intramuros era complicado e caro. Mas depois de acompanhar a saga do meu namorado para encontrar nosso estúdio, eu percebi que é algo completamente sem noção. Basicamente você tem que montar um dossier com cartas de indicação, ganhar 3 vezes mais que o aluguel e ter a lua em áries. Fora o preço, que comparado com outras cidades, te faz quase chorar de raiva. Hoje eu me pergunto como a Amélie Poulain conseguia pagar um apartamento daquele tamanho, em plena Montmatre.

    Finalmente, quanto ao dia-a-dia, eu sinto que de segunda à sexta em horário comercial, não faz muita diferença morar em Paris ou outra cidade. Obviamente, foi muito legal ter uma vista para a torre no meu último estágio, mas a minha rotina é quase a mesma que eu tinha no Brasil. Eles até têm uma frase para isso: metro, boulot, dodo (metro, trabalho, dormir).


2) Como é a cultura de trabalho? E como foi o processo de oportunidade de entrar em uma empresa ou trabalhar pra alguém? 


T. Em relação às oportunidades de trabalho, eu ainda estou estudando. Mas posso falar que estou no meu 3° estágio na França e foi relativamente fácil de encontrar estágio aqui do que no Brasil. Durante a fase de seleção, eu sempre disputei as vagas com franceses e nunca me senti em desvantagem, nem discriminada.

Durante os estágios, percebi que no Brasil temos uma tendência a misturar um pouco vida privada e vida profissional, de contar bastante da nossa vida para os colegas mais próximos. Aqui essa mistura já é mais difícil, pois o ambiente apesar de ser amistoso, é bem mais profissional. Eu considero positivo esse distanciamento, pois eles não têm a tendência de levar uma crítica sobre o trabalho para o lado pessoal.

Existe um ponto que eu considero negativo, que é o tempo passado a mais no trabalho. Não existe hora extra, mas uma espécie de banco de horas que você acumula para tirar folga. Entretanto, este dia de folga não necessariamente vai suprir o seu tempo extra de trabalho. Isso faz com que o pessoal passe 2-3 horas a mais no trabalho, principalmente os cadres (quem tem formação superior). Quando você tenta sair no seu horário normal, pode ser que alguém te olhe meio torto. Isso é um ponto que eu me policio, pois não quero fazer do escritório minha casa.


3) Como é para fazer amigos e socializar? As pessoas recebem bem, são simpáticas ou mais discretas?


T. Os franceses (principalmente os parisienses) têm fama de serem grossos, mas acho que isso vai mais do fato de que eles não fazem rodeios para dizer as coisas, diferente dos brasileiros.

Quando me mudei, estava meio que esperando umas “patadas” gratuitas. Tive uma grata surpresa pois encontrei muito mais gente simpática do que eu imaginava. Eles são gentis e discretos, mas é meio difícil quebrar essa barreira para fazer amizades. Eu acho que, na verdade, o problema é mais a dificuldade de fazer amigos na fase adulta do que o temperamento deles. Entretanto, quando você quebra essa casca, você percebe que realmente ganhou um bom colega.


4) Sabemos que o approach na parte de relacionamentos amorosos também é diferente em cada país. Como funciona essa parte onde você tá? ♥


T. A minha experiência na ~paquera~ se limita ao meu tempo de intercâmbio. O que eu percebi foram duas coisas:

  • Tanto homens quanto mulheres tomam iniciativa;
  • Eles precisam de bebida para se soltarem, e não é nem para ficarem bêbados. Depois de conversar com vários brasileiros sobre isso, eu percebi que eles usam o álcool mais como desculpa do que como droga. Sabe aquela “foi mal, tava bêbado/bebi demais”? Acho que eles são vivem numa cultura tão menos calorosa que a nossa, que eles precisam de um álibi para ter esses escapes (inclusive amorosos).

No depois da conquista, a coisa também é diferente de nós. Como eu disse, a sexualidade não é tabu para eles. Sexo casual é algo encarado com naturalidade (lógico que sempre vai ter uma fofoca, mas ninguém vai ficar se fazendo de puritano para julgar a noite alheia). Então é completamente normal você sair, passar a noite com alguém e não manter contato com ela. Vida que segue.

Já sobre os relacionamentos duradouros, em geral, não existe o conceito de ficar com alguém. Saiu mais de duas vezes juntos, você já pode se considerar em um relacionamento sério. Foi mais ou menos assim que eu comecei a namorar, haha. Mais um ponto: não existe a pergunta “Vamos namorar?”. Essas diferenças, que podem parecer bobas, podem dar bastante confusão.


5) Atualmente discutimos muito a posição e os direitos das mulheres na sociedade, mas esquecemos que cada país está avançando de uma maneira diferente. Você poderia contar um pouco pra gente como sente isso no lugar onde você está?  


T. Antes de responder, eu vou apenas explicar que esta é a minha visão de mulher branca/cis/classe média. Eu tenho plena consciência de que outras mulheres possam ter outras experiências morando aqui.

No campo profissional, a igualdade salarial é lei desde 72. Na prática, ainda não ganhamos o mesmo que os homens, nem ocupamos a mesma quantidade de cargos – muito menos de cargos de chefia – mas ao menos existe um aparato legal e da própria União Européia que favorece uma progressão deste cenário.

Já na vida privada, percebo que elas aceitam mais o corpo, que existe uma naturalidade maior da nudez (mesmo se nós somos o país do carnaval).  Elas também “ganham” de nós em relação à sexualidade, que é muito menos um tabu para elas do que para nós. Além disso, há mais de 40 anos o aborto é legal no país, um direito que ainda nos é negado no Brasil. Ainda temos o que avançar e podemos aprender com elas.


6) Essa percepção feminina que você está vivendo no momento fez você repensar na sua situação como mulher no Brasil? É possível traçar um paralelo e fazer um antes e depois seu?


T. Sim, me fez perceber que a condição da mulher ainda é muito ditada pela “moral e bons costumes” no Brasil. Mais do que reavaliar minha condição de mulher, percebi o quanto o Estado laico (que não é sinônimo de Estado ateu) é importante para o desenvolvimento e amadurecimento de uma sociedade. Comparando com a França, nós somos um país ainda amarrado por crenças religiosas, e isso acaba refletindo nos direitos da mulher, dos LGBT e outras minorias. Ainda temos que amadurecer: a Bastilha não caiu em apenas um dia.


7) Qual é o maior aprendizado que você está tendo com essa cultura? E o que você acha que eles poderiam aprender com a gente? 


T. Acho que meu maior aprendizado foi ser mais direta, falar o que eu quero e o que eu penso. Ainda estou aprendendo a fazer tudo isso, mas estou no caminho.

E eu acho que os franceses podiam aprender conosco a rir um pouco mais da vida, e reclamarem menos.


8) No seu processo de vivência, teve algum(s) costume(s) que você custou em se adaptar ou ainda está em processo de adaptação? 


T. Acho que não tem um costume com o qual não me adaptei. Ainda estou aprendendo certas regras de etiqueta, por assim dizer. Às vezes, não tenho certeza se estou sendo intima demais com a pessoa ou não, mas não é nada de super estranho.

9) Qual é o lado B de viver aí que você ama, mas ninguém fala ou conhece? Ou qual dica turística “de local” você poderia dar pra alguém que deseja visitar?


J. Tenho duas dicas: a primeira é a rua Butte-aux-Cailles, com seus bares e o restaurante Chez Gladines, barato e gostoso. A segunda é o 19° ème arrondissement, onde fica o Parc de la Villette. Ele é bem menos turístico, então os restaurantes e bares são mais em conta. Para quem quiser uma comida com mais “sustância”, os restaurantes africanos são uma ótima pedida.


10) E pra finalizar, você já passou por alguma situação engraçada que daria uma tirinha? 


Acho que a minha pior gafe foi na casa dos pais de um amigo do meu namorado. Eles são uns franceses de raiz, super simpáticos, colecionadores de antiguidades (para vocês entenderem o contexto). Eles nos trouxeram queijos, café, etc. Até aí tudo bem, o problema foi na hora de se servir. Pelo menos lá em casa, os talheres eram simples, colher/garfo/faca e olhe lá. Quando eu olhei o que estava na mesa, já comecei a suar frio. Primeiro, eu vi essa faquinha aqui pra cortar o queijo (que eu deduzi assim, pois ela estava junto à eles):

E eu, no alto da minha ignorância, fui tentar cortar o raio do queijo com a pontinha da faca. O casal me corrigiu, explicando que a ponta era pra pegar o pedaço já cortado. Depois, eu ainda tentei cortar o queijo com o lado errado da lâmina.

Não satisfeita em passar essa vergonha, lá vou eu tentar pegar o cubo de açúcar com um negócio parecido com esse aqui:

Na minha cabeça, era uma colherzinha furada, cujo objetivo era pegar um único cubo. Aí eu fiquei uns minutos tentando pescar o açúcar, até eles me explicarem que era uma pinça. Fiquei morrendo de vergonha, mas podia ter sido pior. Podia ter sido no meio de um restaurante, haha.


E aí, curtiram o post do
MPM – Mulheres pelo Mundo e a entrevista? 

Se tiverem dúvidas, comentários, experiências semelhantes
… deixem aqui embaixo e vamos trocar ideias 🙂 ♥ Já leu nosso post sobre viver na Califórnia? Clica aqui 

9 Comments

  1. ADORO essa sessão, TANTO! ME sinto tão identificada. <3 Adorei a história da Tabatha!

  2. Ah que legal ler tudo isso! A princípio não tenho vontade de morar fora do Brasil, mas tenho muita vontade de conhecer e passar períodos médios em alguns lugares, entre eles a França. 🙂

    Beijoos, Ana.

  3. Oi, Ivana
    Tô morando na Turquia. Se curtir, posso escrever um post sobre como é a vida aqui =)

    bjuu

    • Oi Natalia!
      Claro, quero sim! Inclusive estou buscando pessoas de países com mais contraste 🙂 vou te enviar por email 🙂

  4. Adoro esses posts!!
    Até fiquei com vontade de participar, mas meus 6 anos na Espanha já acabaram :/

  5. Camila Fischer Reply

    Adorei a entrevista! Super me identifiquei com a Tabatha haha

    Viajei pra Paris há 2 anos com meu marido e ficamos apaixonados pela cidade.

    Ler esse post deu uma saudade imensa <3

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