Julian Sonda Gallina, 31 anos, filha de gaúchos
nascida em Xanxerê-SC que deixou sua cidade
natal para estudar Publicidade e Propaganda em Curitiba-PR.

 
Quando decidi fazer Publicidade e Propaganda sabia que poderia ser difícil (por ser uma área com fama de pagar mal). Uma parte de mim pensava “Ah se eu fosse boa em exatas poderia fazer Engenharia e ter meu futuro garantido”, a outra parte de mim pensava “Faça o que ama e o que te realiza com dedicação que terás sucesso”. Sempre sonhei grande e nunca duvidei da minha capacidade e potencial de ir “além”. Foi assim que em Janeiro de 2011 comecei a trabalhar no Google Brasil. Hoje, 6 anos e meio depois me encontro no Google US, morando em Sunnyvale-CA (famoso Silicon Valley), não poderia deixar de viver essa experiência incrível que é conhecer uma nova cultura, novas pessoas, lugares e aprimorar uma segunda língua.
 

1) Como você pensou que seria morar aí e como realmente é? Hora da verdade!


J. Eu sou uma pessoa muito realista e por isso sempre tento ver os dois lados da moeda, procuro não fantasiar muito para não gerar falsas expectativas e decepções. Por isso não tive MUITAS surpresas. Sabia que aqui nos Estados Unidos:
  •  Teria mais segurança do que em São Paulo (posso esquecer minha bolsa no banco do parque e ninguém vai mexer nela);
  • que “as coisas realmente funcionariam” (tudo aqui é muito organizado, o trânsito é um exemplo perfeito: mesmo se o semáforo quebrar o trânsito flui, pois as pessoas tem senso de coletividade e conseguem se organizar sozinhas);
  •  teria mais qualidade de vida (os americanos são mais focados no trabalho, 5 pm eles estão indo pra casa ficar com suas famílias);
  •  as pessoas são mais frias/pouco amigáveis (quando elas perguntam “como você está?” elas não esperam que você conte como foi o final de semana, sempre tenho a impressão que só perguntam por perguntar);
  •  sinto falta de abraçar as pessoas (você tem que tomar muito cuidado pois tudo aqui pode ser assédio ou politicamente incorreto, geralmente o “aperto de mão” é mais seguro);
  • custo de vida é MUITO caro!!! Aluguel e impostos são de matar;
  •  não sinto que aqui é minha “casa”, minha “terra”, talvez possa vir a sentir que é mais pra frente, mas por enquanto tenho esse sentimento que estou de “férias”, umas férias super longas.


2) Como é a cultura de trabalho? E como foi o processo de oportunidade de entrar em uma empresa ou trabalhar pra alguém? 


J. No começo foi bem difícil até me acostumar com o jeito que os americanos trabalham. Eles são bem agressivos, impessoais, focados e competitivos.
  •   Só fazem o que está dentro do escopo deles e não tem nenhum problema em te dizer “Não vou fazer isso pois não faz parte da minha função”, no Brasil a gente daria um jeito de “ajudar o coleguinha”.
  • O que me chocou muito é ver que tem pessoas que trabalham na mesma equipe e não se conhecem. Como eles são “muito focados”, chegam no trabalho, sentam a bunda na cadeira e trabalham, trabalham, trabalham para poderem sair as 5pm. Não tem essa história de cafezinho pra cá, papinho pra lá que nem no Brasil (óbvio que existem exceções)
  • Pontualidade e agenda são fundamentais (aprendi que não posso ir pra uma reunião sem uma pauta com plano A e plano B para que todos os pontos sejam discutidos).
  •  Os americanos são muito marketeiros, sabem se vender muito bem (preciso muito aprender isso com eles). Já presenciei pessoas vendendo um “projetinho de nada” como se fosse a coisa mais incrível do mundo e todo mundo achou o máximo e comprou a ideia.


3) Como é para fazer amigos e socializar? As pessoas recebem bem, são simpáticas ou mais discretas?


J. Como no escritório tem gente de todo o lugar do mundo eu diria que não tive problemas em socializar com povo. Mas falando dos americanos, eles são sim mais fechados e duros na queda. É difícil você conquistar a confiança deles para eles te chamarem pra um jantar na casa deles por exemplo.
Eles são simpáticos, mas não parecem verdadeiros, como comentei anteriormente parece que às vezes falam algumas coisas só por educação e não porque estão interessados em saber sobre você.


5) Atualmente discutimos muito a posição e os direitos das mulheres na sociedade, mas esquecemos que cada país está avançando de uma maneira diferente. Você poderia contar um pouco pra gente como sente isso no lugar onde você está?  


J. Onde eu moro tem muitas empresas de tecnologia que empregam gente de todo o lugar do mundo (América Latina, Índia, China, etc) ou seja, tem muita diversidade. Essas empresas defendem direitos iguais entre raças e gêneros. Uma iniciativa recente foi a extensão da licença paternidade para 4 meses (remunerada), assim como a equiparação dos salários de mulheres se comparado ao de homens na mesma função.

Ainda não presenciei nenhum preconceito por ser estrangeira e/ou mulher, acho que a Califórnia é uma exceção, um estado mais aberto que os demais. Mas aqui nos Estados Unidos vemos uma grande maioria preconceitusa e intolerante. Por outro lado, assim como no Brasil, já fui assediada por motorista do Uber, por exemplo, 😕  o que é triste ver que tem em todo o lugar. 


6) Essa percepção feminina que você está vivendo no momento fez você repensar na sua situação como mulher no Brasil? É possível traçar um paralelo e fazer um antes e depois seu?


J. Acho que essa percepção já fazia parte de mim e das minhas vivências no Brasil. Não sinto que mudou depois que vim pra cá, pois já estava inserida em um ambiente/círculo de pessoas que valorizava e discutia os direitos das mulheres e das minorias.


7) Qual é o maior aprendizado que você está tendo com essa cultura? E o que você acha que eles poderiam aprender com a gente? 


J. Aqui eles aprendem desde pequenos na escola a falarem as coisas boas que eles sabem ou fazem, de vender seus pequenos projetos ou iniciativas, e no Brasil a gente sempre acha que se fizer alguma coisa boa ou importante alguém irá naturalmente reconhecer, a gente acha feio ficar se mostrando ou falando das coisas que fizemos. Essa é uma das coisas que eu quero aprender com os americanos.

 E o que eles poderiam aprender com a gente? Serem mais calorosos, mais próximos nas relações pessoais, darem mais abraços e beijos.


8) No seu processo de vivência, teve algum(s) costume(s) que você custou em se adaptar ou ainda está em processo de adaptação? 


J. Sim, acho que a parte relacionada ao trabalho eu já comentei nas respostas anteriores, mas uma coisa que eu estou tentando me adaptar sem perder a minha identidade latina é como eu lido com o fato dos americanos não se aproximarem fisicamente das pessoas. Por exemplo: esses dias fui almoçar com meus colegas do trabalho, estávamos caminhando de volta do restaurante para o escritório e uma colega americana estava carregando o celular, um copo de café e mais alguma coisa na mão. Estava ventando muito e ela ficou toda atrapalhada com o cabelo que cobriu a cara dela. Então eu, na minha inocência, tirei o cabelo dela da cara dela e me ofereci para ajudá-la a carregar as coisas. A primeira reação dela foi: ficar imóvel, falar “too much touching” e depois agradecer por eu ajudá-la a carregar as coisas 😂 Depois que eu me toquei, pedi desculpas e tentei explicar que na minha cultura isso é OK, que eu só estava tentando ajudá-la.

9) Qual é o lado B de viver aí que você ama, mas ninguém fala ou conhece? Ou qual dica turística “de local” você poderia dar pra alguém que deseja visitar?


J. Amo o fato de ter muitas opções de entretenimento ao ar livre (parques e lugares incríveis, com uma super estrutura para acampar, não sou uma pessoa que gosta de acampar, mas acho que em breve vou me aventurar, pois aqui tudo é super organizado e seguro). Perto de onde eu moro tem vários lugares bacanas pra visitar (São FranciscoYosemiteNapa valleyLake TahoeBig sur).


10) E pra finalizar, você já passou por alguma situação engraçada que daria uma tirinha? 


 Tem sim, (Ivana falando)… haha ABRAÇO COLETIVO VIRTUAL NA XULIAAAAN ♥

E aí, curtiram o primeiro post do
MPM – Mulheres pelo Mundo e a entrevista? 

Se tiverem dúvidas, comentários, experiências semelhantes
… deixem aqui embaixo e vamos trocar ideias 🙂 ♥ E claro, aguardem o próximo  😎 
 

8 Comments

  1. Adorei a entrevista!
    A Julian é incrível 💜
    Merecedora de todas as conquistas.

    • Obrigada Francine 😉 como não tem uma foto sua aqui não posso afirmar com 100% de certeza, mas seria você a Tuti? 😁

  2. Amei a entrevista! A dinâmica das perguntas e respostas é genial, sem contar que quem já morou fora super se identifica com as gafes culturais! Parabéns!!!

    • Que bom que curtiu Fernanda!! Você também tem alguma gafe cultural pra compartilhar? 😌

    • Fico feliz que gostou do post Liz! Vem pra Califórnia também 😉

  3. Eu sempre tenho q me lembrar de não tocar nas pessoas aq, elas não são acostumadas hauahha, gentiii é cada vergonha q a gente passa 🤦‍♀️🤦‍♀️😂

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