Gerar um bebê é uma coisa mágica,
algo que muda você pra sempre, e é por isso que dói tanto.

E como todo momento importante da minha vida, esta mudança trouxe novos cheiros, algo relacionado à memória afetiva.

E juro que não tenho a intenção de fazer discurso pró gravidez aqui. Tenho várias amigas que optaram por não ter ou então que não puderam ter filhos, e isso não significa que elas não tenham seus desafios pra enfrentar – cada uma tem a sua história. Mas no meu caso, sentir outra vida crescendo dentro de mim foi, até o momento, o evento que mudou radicalmente minha forma de ver o mundo.

Descobri que estava grávida no banheiro da faculdade em que eu lecionava. Suspeitando que poderia ter acontecido comigo, comprei um destes testes de farmácia e cheguei junto de uma amiga do trabalho: “Pelamordedeus, vem no banheiro comigo? Quero fazer um teste de gravidez”.

“Mas tem que ser com a primeira urina do dia” ela disse. Já estávamos quase na hora do almoço. “É só pra tirar a cisma” respondi. Fomos. Eu e a Tere. Ficamos as duas olhando aquele teste em forma de termômetro dentro do potinho de urina.

Apareceu um primeiro risco. Logo em seguida outro começou a surgir.

“Eu acho que você está grávida, professora.” Espremi os olhos. “Dois riscos significa que eu estou grávida?”

Significava.

Comecei a rir, não sabia se de nervoso ou de felicidade. Contei pro namorado e foi assim que tudo começou, minha aventura hormonal. Eu me sentia poderosa por estar gerando e impotente por não poder decidir nada sobre aquela nova vida, nem o sexo nem a saúde ou o tempo de vida do bebê. A qualquer momento poderia acontecer algo e eu teria que aceitar, não é mesmo? Então foi isso que eu fiz: aceitei. Confesso que foi libertador.

Foram 38 semanas de altos e baixos, de autoconhecimento, de muita leitura, de novas sensações. A cada semana uma novidade que às vezes trazia um sorriso e outras vezes, sem explicação, me fazia chorar.

Meu cheiro mudou e passei a usar outro desodorante. Conheço casos de mulheres grávidas que não suportavam inclusive o cheiro do pai da criança nesta fase (é sério  😯 )

Tive dias de zumbi, de querer dormir o tempo todo, tive dor de dente fulminante e problema no joelho por conta do sobrepeso. Tive enjôo nas primeiras doze semanas e azia nas últimas. Tive dificuldades para escolher a decoração do quarto e pra decidir se queria parto normal ou cesárea. Mas foi lindo, todo o conjunto da obra.

Alice nasceu de cesárea com 49 cm e 3,365 kg. Nos três primeiros anos da vida dela eu esqueci de mim e não me arrependo. Cada uma tem seu tempo. Ainda hoje estamos aprendendo, juntas, quem somos e pra onde vamos.  Eu acho meu cheiro novo estranho e ela diz que é o melhor do mundo.


Fui entender anos depois, na terapia, que não existe vergonha em não saber o que está acontecendo. Faz parte da vida.


 

Hoje eu olho pra minha mãe e entendo tudo, todo o amor dela, que antes eu não reconhecia. Aos poucos liberto a Alice pra vida, com o coração apertado, assim como minha mãe fez comigo um dia. Lembro de quando eu saí de casa, ela dizendo “Se você quer ir, vai logo. Marca uma data e vai.” Me pareceu tão insensível na época e hoje me parece tão corajosa esta atitude. Era como dizer “vai antes que eu me arrependa!”

 

Fui.
Mas até hoje identifico o cheiro dela, seja numa roupa emprestada, nas almofadas ou no travesseiro.
A mágica que permanece no meu inconsciente. Alquimia da natureza.

Cheiro de mãe, o melhor cheiro do mundo.

Adriana Tozzi
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Eu sou Adriana Tozzi, curitibana, professora, engenheira, cantora de karaokê e mãe da melhor pessoa que eu já conheci ❤.

4 Comments

  1. Aiai, que lindo Adri. Eu até hoje lembro da minha avó, já falecida, com certos cheiros. É tão gostoso ❤️

    • Adriana

      Não é? Eu tenho muito isso, de cheiros.
      Eu tenho blusas da minha mãe, que ela me passou porque não usava, que mesmo lavando continuam com o cheiro dela. Rs.
      Beijos

  2. Que lindo! Optei por não ter filhos e admiro tanto as mulheres que vivem a maternidade! Eu sempre fico nessa de “meu Deus, ‘cê tá gerando uma vida aí dentro!” quando vejo amigas grávidas e acho uma das coisas mais legais da vida.

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