Jay Z segue com 99 problemas,
já Beyoncé teve alta.

O 4:44 foi lançado na semana passada e a internet já foi a loucura. As comparações e respostas ao conteúdo do Lemonade foram inevitáveis. Em uma primeira audição já sabemos que:

  • Os gêmeos são naturais;
  • Jay Z acha que a Solange estava certa na briga do elevador;
  • Solange bateu nele por causa da Becky mesmo;
  • Jay Z não sossegou o facho até a Blue Ivy nascer e;
  • Beyoncé não fez a submissa e azucrinou o boy, como ela bem conta em Sorry e até saiu de casa (Sandcastles: I’ve made you cry, when I walked away e Sorry: “Me and my baby will be just fine” “When you arrive I will not be there”)

Logo que Lemonade saiu, um dos tweets que gerou aquele LOL foi um que dizia que Jay Z agora tinha 100 problemas, ao contrário do que indica sua canção mais icônica, 99 problems (but a bitch ain’t one). No mundo do hip hop, pra quem chegou aqui pela fofoca, bitch é designição de mulher, sendo ela chata ou periguete ou não. É uma questão cultural que foi apropriada inclusive pelas mulheres como forma de empoderamento (Nicole e Paris – branquinhas – ah, os anos 90 – se chamavam de bitch em seu reality e daí virou mainstream).

Mas a verdade é que Jay Z segue tendo 99 problemas, até um pouco menos já que agora ele falou da mãe lésbica – e a aceitou -, prometeu que parou de womanizar e cantou a questão negra com maturidade e não só momentos gangstas. O que a gente não pode deixar aqui é tirar a protagonismo de Lemonade de quem realmente merece. Beyoncé não fez um disco-marco por vingança e não foi a traição que originou isso, foi um processo artístico profundo e pessoal: o autoconhecimento.

Vendo os comentários na timeline, eu lembrei da época em que eu não conseguia sentir arte. Sentir mesmo, essa é a palavra. Eu achava interessante estar no meio artístico e conviver com pessoas que pareciam ter mais empatia e intelecto do que a maioria, mas eu realmente não entendia o propósito deles. Me parecia egóico, esnobe, pura insegurança. Foi em um processo meu de autoconhecimento que entendi o propósito da criação artística e estava longe de ser o mais cool ou o top das paradas. Existia uma catarse coletiva que poderia ser iniciada com arte. Como aqueles filmes do Lynch e do Lars Von Trier que geravam sentimentos ardidos como pimenta, a jornada de Lemonade faz a gente sofrer.

Eu choro sempre que Jay Z aparece em Sand Castles, mas eu sou fruto de uma sociedade em que o casamento e toda a paz e status quo que ele representa eram uma conquista. Isso não é percebido mais assim. Mas não importa como eu ou você ou toda a geração Z vai ver o casamento, importa os sentimentos que Beyonce passa em sua jornada. Esse é o objetivo artístico final: fazer você sentir. E não apenas o que ela sentiu: a dor, o ódio, a vigança, o renascimento, a paz e sim o que você interpreta com sua história de vida dessa história.

Para mim Lemonade é uma jornada de cura em que eu me reconheço como mulher, mas, não sendo negra, não posso ter o entendimento todo desses sentimentos.

Mais do que uma traição ou várias, Lemonade é sobre passar por desafios, muitos deles vindos de uma sociedade que criou homens pra serem garanhões e mulheres para acreditar em príncipes e outros tantos por uma carga história que deixou as mulheres negras como coadjuvantes e submissas ao preconceito e à falta de possibilidade de independência para sair de situações em que eram submetidas às vezes pelos mesmos homens que eram a única forma de elas se inserirem na comunidade, mesmo que na mais marginal delas.

“Are you talking about your husband or your father?”

“Você está falando sobre seu marido ou sobre seu pai?”

É notório que a Beyonce demitiu o pai de ser o empresário dela e assumiu as rédeas do sucesso. Ela até fez um documentário (Life is but a Dream – HBO 2103) praticamente todo para explicar isso, Mathew Knowles se separou de Tina Lawson em 2009 e veja bem, ele também está nessa jornada em que o sexismo e o racismo esmagaram até uma rainha de se sentir plenamente feliz.

Mas preciso frisar: Lemonade não é sobre homens, é sobre uma mulher tomando o controle do seu destino e da sua cura, escolhendo ficar com o cara que não era príncipe (mas isso ela sabia – gangsta wife) e fazendo disso uma jornada inspiradora em que conseguimos sofrer, odiar, se estenuar, chorar e celebrar. Na ordem da obra, Freedom vem depois de Sandcastles e encerramos com o regozijo de Formation que celebra exatamente a independência (inclusive financeira) da mulher negra frente a tudo que ela passou. Em mais de uma geração. A aceitação que ela, parte de todo aquele histórico, precisava se celebrar como mulher e negra, contra os haters albino aligators (citação da música Formation), em sua jornada de libertação e felicidade.

O mais legal de uma arte de uma diva pop (sim, arte e pop podem estar na mesma frase desde Andy Wahrol) é o alcance que ela tem. Eu vi muita gente dançando, cantando, outros pensando e quase todo mundo se inspirando e elevando com essa jornada. Lemonade e 4:44 não são sobre uma traição ou resposta a fofocas, nem sobre milhões de dólares, são marcos honestos de dois artistas que, pra nossa sorte, ganham dinheiro e podem viver de celebrar uma cultura que já foi marginalizada, se tornando porta-vozes de uma comunidade da qual eles, de uma forma ou outra, sempre fizeram parte. Se você ouviu um ou outro apenas pensando nas fofocas e se “estava atrapalhando o casalzinho aí”, ouça de novo. Todo mundo tem algo a aprender do caminho de cura de Beyoncé.

karol andreis
Author

Karol Andrêis é publicitária da área digital, empreendedora e fã da Beyoncé.

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