O desfralde é um dos primeiros desafios da maternidade para muitas mães. Não vou generalizar porque conheço mães cujos filhos pediram pra não usar mais a fralda antes mesmo que a família começasse a sofrer com este dilema, mas eu sofri e sei que muitas outras amigas também sofreram e ainda sofrem.

Engraçado que hoje eu vejo as crianças de outra forma. Ao contrário do que eu imaginava, de que existia um “jeitinho” pra tudo, hoje minha percepção com relação à um bebê é de que ele é um indivíduo com vontades próprias. Todos choram quando tem fome ou sentem-se desconfortáveis, mas cada um deles descobre a vida de uma maneira. Não tem muito o que fazer, apenas tentar entender, ajudar, dentro da realidade deles.

O desfralde na minha casa foi traumático por uma série de eventos que vão desde a minha insegurança em retirar a fralda, fazendo com que minha filha também ficasse insegura (“se nem minha mãe tem muita certeza, como é que eu vou saber que vai ser bom?”) até a resistência, um detalhe da personalidade dela, em mudar as rotinas. Tivemos dificuldades em várias etapas do desenvolvimento infantil (e ainda temos) por conta disso, da minha filha não sentir que era o momento dela.

Como eu poderia ajudar?

Na época, meio contrariada, procurei uma psicóloga familiar. No início, quando mencionaram terapia, pensei “mas ela não é muito pequena pra isso?” E obtive a resposta de que a terapia era pra mim, e não pra ela. Sessão após sessão, ficou evidente que tínhamos comportamentos diferentes, eu e ela, e de que nem sempre o que funcionou comigo ou com o filho da amiga iria funcionar com aquela pequena pessoa.

E eu recomendo muito a terapia.

As pessoas acham caro, mas você não precisa ir toda a semana. Eu fazia a cada quinze dias e penso em retomar nem que seja uma vez por mês, porque de tudo que eu gastei com maternidade nos últimos anos, a terapia foi um dos melhores investimentos. Aprendi um pouco sobre quem eu era (ainda estou na luta) e de como eu reagia aos “fracassos” como mãe, um coitadismo sem fim que ainda toma conta de vez em quando.

Percebi que pra ajudar minha filha, eu precisava primeiro me conhecer, o porquê das minhas atitudes involuntárias ou da repetição de comportamentos femininos que eu carregava comigo sem perceber. Aos poucos fomos fazendo as pazes, mãe e filha, e ficou evidente que ela já tinha seus próprios Dilemas, sua ansiedades de não conseguir realizar algo, e suas reações intensas quando submetida à situações que não concordava, mesmo ainda tão pequena. Até então eu não ajudava, eu só impunha.

O desfralde aconteceu mais tarde.

Com dois anos e meio, tentei tirar a fralda mas ela resistiu. Não fazia xixi nem coco. Todo o tempo que ficava sem fralda ela segurava. Daí chegava da escola apertada e implorava “por favor, mãe, coloca a fralda”. Eu não aguentava e colocava e ela corria pro canto e fazia tudo que tinha direito. Nossos dias correram assim até que eu resolvi ser firme e negar aquela fralda “muleta”. A partir disso, o intestino dela parou de funcionar. Com uma semana nesta tortura e ela com muitas cólicas, acabamos num hospital.

Neste dia decidi que ela continuaria usando as fraldas. Eu não sabia o que fazer e nem ela, e me senti aquela mãe que poupa a filha e que um dia iria se deparar com um adolescente que acha que pode ter tudo que quiser.

Enfim, com quase quatro anos, ela largou tudo sozinha, fralda diurna e noturna, de uma só vez. O motivo? Nenhum dos amigos usava fralda, então ela também não usaria. Pra tirar a chupeta demoramos o mesmo tempo. Quando os outros começaram a dizer “nossa, uma menina tão grande usando “bico”? ela ficou envergonhada e abandonou o hábito.

Se eu poderia ter evitado tudo isso? Talvez sim, mas eu estava tão confusa quanto ela. Hoje consigo ajudar muito mais. Quando ela diz que não vai fazer lição, eu digo “problema seu” e lá vai ela abrir o livro pra não levar bronca da professora. Entender que o caminho tinha que ser trilhado por ela foi um dos maiores ganhos dessa história.

E reafirmo o que escrevi neste texto: podemos todas nós, mães, trocarmos experiências, mas nada substitui uma boa análise, você e você, confrontando teoria e prática. Assim como as crianças, somos todas diferentes, pensamos diferente e nos realizamos de forma diferente.

Aprender sobre como lidar com a Alice me ensinou a como encontrar o meu eu, perdido lá no fundo, debaixo de um monte de regras e achismos, com medo de fazer a coisa errada.

Vou errar sempre, assim como ela, mas agora parece uma convivência mais verdadeira, sem gritos, sem traumas.
Apenas duas pessoas tentando dialogar.
Espero que continue assim.


E se você tiver alguma experiência com desfralde, positiva ou negativa, escreve aqui nos comentários. Sempre bom saber que não estamos sozinhas!!!!

Bêjo.

Adriana Tozzi
Author

Eu sou Adriana Tozzi, curitibana, professora, engenheira, cantora de karaokê e mãe da melhor pessoa que eu já conheci ❤.

1 Comment

  1. O desfralde do meu filho foi muito tranquilo. Desde de um ano de idade quando ele ganhou um pinico de aniversário eu colocava ele lá antes de dar banho e ele foi achando natural. Com 2 anos e 3 meses a escola iniciou um projeto de tirar a fralda de todos da turma. Eu havia iniciado as tentativas uma semana antes e muitas escapadas aconteceram. Foi uma bênção esse projeto da escola, ele nunca deixou escapar mais, assim de início. Uns 8 meses depois, iniciando as férias de julho, fui colocar a fralda pra dormir e ele disse que não queria mais. Eu pensei: logo nas férias de inverno, bota a fralda filho!!! Mas não disse nada, claro. Hoje, com 4 anos, depois que a irmãzinha nasceu, ele tem deixado escapar xixi à noite. Hoje por exemplo a cama amanheceu um pouco molhada, mas ele insistiu que não foi ele mas um monstro que passou ali à noite. Estamos trabalhando isso aos poucos. Ele começou a fazer taekwondoo e lá são definidos objetivos a serem alcançados, não fazer xixi na cama foi um deles, ele ficou 20 dias sem fazer na cama depois disso, mas agora está perto de um torneio em que se apresentará e acho que isso tem deixado ele nervoso. Coração de mãe fica apertado!!!

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