Dia 19 de setembro um terremoto de magnitude 7.1 atingiu várias regiões do México central. Os mexicanos reviveram a sombra da catástrofe de 85 exatamente 32 anos depois, mas puderam restaurar também toda força, solidariedade e amor que possuem uns pelos outros e pelo seu país… e eu, apenas pude aprender muito presenciando tudo isso.

Primeiro de tudo, quero deixar claro que esse post não é para contar com detalhes os momentos de tensão vividos (já fiz isso uma vez no stories do Instagram do Dilemas e já é mais que o suficiente), mas sim, pra compartilhar o que levarei de aprendizado disso tudo. Foram acontecimentos que me serviram de gatilho para chegar nessas conclusões.

Porém, se você não viu e quer saber o que aconteceu, nesse link contei alguns detalhes clique aqui.
Aviso que felizmente nada aconteceu com a gente  Nossa casa e amigos estão bem!

A calma no caos.

Do momento do terremoto, até eu reencontrar meu marido que estava fora da cidade, passaram-se 5 horas. Em todo esse trajeto, eu tive que me manter calma pra conseguir raciocinar e prestar atenção em minha volta. A minha real vontade era sentar e chorar desesperadamente no meio daquela multidão, mas ainda estávamos na eminência de uma réplica (que é o movimento consequente ao terremoto) e vazamentos de gás constantes, ou seja, tinha que permanecer 100% alerta!

Nesse momento pude confiar em mim mesma, no meu raciocínio e, principalmente, instinto. Muitas vezes duvidei da minha capacidade e não ouvi o que a tal “voz da sabedoria interna”, vulgo intuição, queria me dizer. Mas quando me vi ali, no TUDO OU NADA, pude “relaxar” e me entregar para mim mesma… Foi como se eu falasse para minha criança interna: “Calma, eu tô aqui, vou cuidar de você e sei exatamente o que vamos fazer a seguir.” 

Não se abandone pelo desespero. A reação rápida ao acontecimento te salva, mas conseguir instaurar o auto controle no caos pra analisar a situação do perigo, PODE TE SALVAR MAIS AINDA. 

Príncipe encantado não existe.

Por mais que eu tenha estudado alguns livros sobre psicologia analítica, contos de fada, feminismo, ainda haviam em mim resquícios de uma figura masculina salvadora que me tiraria de situações de perigo como essa, no caso materializada na figura do meu marido. Porém, no momento em que eu encontrei ele, eu não me senti SALVA, sabe? Todo o drama e tensão continuaram alertas em mim… Foi aí que eu finalmente percebi que eu era a única Heroína de mim mesma. Como não pude ver isso antes?

Só eu vou poder me defender, buscar solução, clamar por mudanças e melhorias… Sabe aquele sentimento de que uma hora vão notar o seu excelente esforço e dedicação no trabalho? E o aumento de salário vai vir da parte da empresa? Pasmem, é a mesma coisa. Passamos uma vida (principalmente as mulheres) esperando e terceirizando a nossa “salvação”.  A sombra do príncipe encantado sempre está a espreita nos permitindo ser vítimas de nossas próprias inseguranças.

Essa autonomia que defendo agora, nos liberta para ter relacionamentos até mais igualitários, porque ninguém precisa ter a responsabilidade de nos salvar de nada, né? E nem a gente de salvar ninguém, apenas estamos aqui para compartilhar o amor e as inconstâncias da vida. Sem cobranças.

Se você tivesse 5 minutos para fazer uma mala, o que você levaria nela?

Meu marido disse: “Pegue os documentos e vamos para outra cidade”. Subi em casa e apenas joguei tudo numa mala, nem lembro o que coloquei lá… Não tínhamos garantia que voltaríamos a ver nossa casa. Só sei que quando olhei em volta, ao mesmo tempo que o coração apertava em deixar tudo pra atrás, nada daquilo era realmente importante pra mim. Um desapego consciente me pegou em cheio.

Estamos passando por uma crise de refugiados que em circunstâncias muito piores de guerra e violência tiveram que deixar tudo pra atrás em busca de salvar suas vidas. Eu tenho muita consciência dos privilégios que possuo e em hipótese alguma quero comparar a minha situação com a deles, mas tudo isso que passei me conectou com esse lado do mundo que parecia tão distante e que merece TANTO nosso cuidado.

Por que mesmo conscientes que isso é grave e que acontece diariamente, nos sentimos tão alheios a situações como essa? O exercício de fazer a pergunta da mala de 5 minutos pode nos tirar da inércia e trazer a empatia que essa realidade merece.

Somos todos iguais.

Em situações como essa não importa se você tem o carro do ano, a roupa da moda, é mexicano, americano, europeu, se é negro, branco, esquerda, direita, rico, pobre…: nada te livra de passar por isso. Catástrofes não escolhem quem vão atingir.

Por um momento me pareceu mais absurdo do que já é todo esse julgamento que temos uns pelos outros, tudo ficou tão insignificante no meio da magnitude da situação. Fiquei pensando muito se valeria a pena eu continuar carregando toda essa opinião e cobrança sobre todos ou tudo…

 O que isso realmente soma na minha vida?
NADA. Agora entendo a beleza e a liberdade de um simples: NÃO SEI.

Ajuda que ajuda.

Fizemos uma campanha para arrecadar donativos e distribuir nos centros de apoio. Na minha cabeça os reais beneficiários seriam aqueles que receberiam as doações, mas o que eu percebi, foi que eu também precisava de ajuda… E ela veio em forma de poder me sentir útil num momento de extrema mobilização civil. Ir comprar, entregar e fazer alguma diferença nos tirou do lugar de impotência e tristeza que nos encontrávamos.

E todo mundo fica feliz: quem doa, quem entrega e quem recebe. A solidariedade não acontece só pra quem “necessita”, mas sim, pra todo mundo que participa dessa corrente de amor. Todos nós somos os REAIS necessitados.

Também fiquei me perguntando: por que eu não me mobilizei por outras causas antes? O sentimento é tão bom, acho que ele pode muito bem substituir o peso dos julgamentos do tópico anterior. Esse sim, vale a pena carregar por uma vida! ps: escrever esse texto me ajudou muito também.

Um adendo aqui para o povo Mexicano: que criaram postos de apoio de doação, psicológico, legal do dia para noite com participação zero de empresas ou governo, ou seja, apenas com a força da população. 
Precisamos confiar mais na nossa capacidade de ajudar e fazer o bem!

Falando em vida, acredite nela.

Sei que muitas pessoas estão passando por momentos imensamente difíceis, tanto por situações que nos tiram a esperança na humanidade como por depressão e muita tristeza… Eu gostaria de dizer uma coisa pra elas: A sua vida VALE MUITO A PENA! Tem muitas pessoas que te amam e você faz diferença no mundo SIM!

Quando eu vi aquele teto de vidro do shopping trincando na minha cabeça, eu só conseguia pensar o quanto a minha vida era valiosa, o quanto eu amava as pessoas e como queria muito TER A SEGUNDA CHANCE de reencontrá-las  Eu juro que deu tempo SIM de pensar nisso tudo! E felizmente, fui beneficiada por essa segunda chance, e meu coração se despedaça em lembrar que muitos não conseguiram ser poupados :˜˜˜˜

Por isso resolvi escrever esse post e passar tudo isso para vocês. O mundo tá num grau de caos e aridez sentimental que insights simples como esse que escrevi aqui, podem talvez fazer diferença também no dia-a-dia de vocês. Tivemos que passar por um momento de caos total pra chegar nessas concluões, mas se for pra ficar com marcas, que sejam de aprendizado e luz.

E mais uma vez: A vida vale a pena, SEMPRE! 


Obrigada a todos que se preocuparam, escreveram, compartilharam e nos ajudaram de alguma maneira a passar por tudo isso. O apoio de vocês foi fundamental. OBRIGADA, OBRIGADA E OBRIGADA.

4 Comments

  1. Que texto mais lindo, de uma sensibilidade que a muito não via! Você transformou em palavras muito. Do que sinto e penso, continue sempre a escrever e desenhar! Muito mais luz e amor para todos nós ❤️

    • Muito obrigada, Priscila! Momentos como esse de mobilização tocam o coração e lavam nossas almas com aprendizados e redescobertas! Fico feliz que tenha gostado… o trabalho daqui continua e fico honrada com a sua presença!

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