Imagine que do dia pra noite, você precise colocar tudo que tem de mais importante em uma mala e sair da sua casa para sempre.

Se você tem filhos, o drama parece maior, porque você precisaria carregar seus filhos cheios de questionamentos para o desconhecido. Assim começa a história do filme “First they killed my father” dirigido Angelina Jolie e que estreou na semana passada no NETFLIX.

O roteiro, baseado nas memórias da ativista Loung Ung, relata em primeira pessoa, na visão de uma garotinha de 5 anos, o que aconteceu com a família dela e de inúmeras outras em 1975, quando o regime comunista Khmer Vermelho assume o controle da capital do Camboja.

Terminado o filme, fiquei cheia de coisas na cabeça. Primeiro me veio um sentimento de impotência por saber que ainda hoje várias famílias fogem de suas casas na tentativa de encontrar um lugar melhor para viver enquanto eu estou aqui sentada, digitando este texto. O segundo sentimento foi de “gratidão” (apesar de não aguentar mais ler a palavra gratidão, ela se encaixa perfeitamente neste momento) por ter um teto, comida, saúde, mesmo com a fatura do cartão tirando meu sono vez ou outra. E finalmente, me senti meio alienada como mãe. Ainda estou com dúvidas se esta seria a palavra certa. Explico.

Ao assistir cenas em que crianças da idade da minha caçam e cozinham sozinhas sua comida, sujas e sem calçado, rodeadas de sangue, apegadas à uma foto, a uma camiseta que ainda tem o cheiro da família, a um urso velho, me questionei pela forma com que crio a minha filha, em como ela enxerga um mundo cujos limites sou eu que traço. Sofre por não ter um brinquedo novo ou por não poder assistir TV por algum motivo sem ter a consciência da dádiva que é estar viva.

Dia seguinte tivemos uma conversa que começou com meu relato superficial sobre a história da pequena Loung. “Mas ela tinha cinco anos?”. Sim. “Mas ela sobreviveu, mãe?”. Sim. “Mas hoje em dia não existe mais guerra, né?”. Existe. Ela ficou assustada.

Tentei explicar que a guerra estava longe, porque não quis que ela ficasse com medo, mas na verdade não está, não é mesmo? Está na favela, está debaixo do viaduto, está ao longo da linha férrea que corta a cidade onde eu moro. Está nas mídias sociais, na maneira como as pessoas estereotipam as outras, como apontam seus dedos e distribuem sentenças como se fossem donos da verdade.

Talvez a grande reflexão que este filme me trouxe foi: quando levantamos a bandeira de um mundo melhor, estamos mesmo buscando resolver o problema do mundo ou apenas resolvendo o problema da nossa própria consciência? E se realmente queremos um mundo melhor, quando é o momento certo de apresentá-lo às nossas crianças?

Fica aberta a discussão para quem tiver interesse porque, sinceramente, ainda não tenho esta resposta. Precisamos filosofar mais.

Adriana Tozzi
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Eu sou Adriana Tozzi, curitibana, professora, engenheira, cantora de karaokê e mãe da melhor pessoa que eu já conheci ❤.

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